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sábado, 28 de novembro de 2009

Imprimido ou impresso?

[Pergunta | Resposta]
Imprimido ou impresso?

[Pergunta] Quando um documento sai de uma impressora diz-se imprimido ou impresso?
Para mim é a primeira forma, embora muita gente afirme o contrário.
C R :: :: Portugal

[Resposta] Como se refere no Glossário do Ciberdúvidas e na resposta anterior sobre matado e morto, alguns verbos portugueses têm dois particípios passados, um regular, mais extenso e acentuado na terminação «-ado» ou «-ido», e outro irregular, mais curto e acentuado no radical. Vejamos o que diz sobre o assunto a «Gramática da Língua Portuguesa», de Pilar Vázquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz (Edições 70, 1971):

O particípio irregular costuma derivar directamente do Latim como cultismo, ainda que algumas vezes se tenha já formado dentro da Língua Portuguesa por contracção.

Esquecida a sua proveniência verbal, a maior parte destes particípios irregulares são usados como simples adjectivos (cego, cativo, livre) ou inclusive como substantivos (progresso, reduto).

Quando os particípios passados coexistem com um valor verbal, costuma utilizar-se:

- A forma irregular com o verbo «estar» ou, na passiva, com «ser», concordando em género e número com o sujeito da oração;

- E a forma regular com a formação dos tempos compostos com os auxiliares «ter» e «haver» como invariável.

Assim, o prezado consulente diz que «o papel foi impresso, embora a impressora o tivesse (ou houvesse) imprimido muito mais devagar do que é costume».
J.C.B. :: 01/02/1997

"Matado" ou "morto"?

[Pergunta | Resposta]
Matado e morto

[Pergunta]
A dúvida que coloco é a seguinte: como se deve dizer, se A tivesse matado B, ou se A tivesse morto B?


[Resposta] Há verbos que têm dois particípios passados (ou passivos), como matar: um é regular, matado; outro é irregular morto. Com os verbos ser e estar, devemos empregar o particípio irregular: Fulano está morto, foi morto; com os verbos ter e haver, devemos empregar o particípio regular: Fulano tinha/havia matado.

in: http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=120

Dúvidas/erros frequentes

A propósito de algumas dúvidas e erros encontrados nos trabalhos, hoje esclareço, a partir da página Ciberdúvidas (de que transcrevo um excerto), que também podem consultar (ligação à direita):

[Pergunta] Devo escrever:
«Para os devidos efeitos se declara...»
ou
«Para os devidos efeitos declara-se»?

«Posso te telefonar...»
ou
«Posso telefonar-te...»?

«Algumas vezez me deparo...»
ou
«Algumas vezes deparo-me...»?

«Vou me levantar...»
ou
«Vou levantar-me...»?

Por vezes, tenho dúvidas quanto à forma correcta de utilização dos pronomes pessoais.

Desta forma, gostava que me dessem alguns exemplos práticos, que me elucidassem.

Obrigada pela atenção dispensada.
Maria Martins :: Administrativa :: Évora, Portugal

[Resposta] Os pronomes pessoais da língua portuguesa mantêm muitas cara(c)terísticas dos pronomes pessoais da língua latina.

Os pronomes pessoais da língua portuguesa também têm marcas da sua função sintá(c)tica: eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas – têm normalmente função de sujeito; me, te, se, lhe, o, a, nos, vos, lhes, os, as – têm normalmente funções de complemento.
Os pronomes pessoais da língua portuguesa também têm bastante mobilidade.

Alem disso, devemos ter em atenção outras cara(c)terísticas. Todos nós somos mais descontraídos na oralidade, mas quando usamos a forma escrita somos mais cuidadosos.
Em certos casos, usamos os pronomes pessoais complementos antes dos verbos como sucede nas frases negativas ou depois de certos pronomes ou advérbios. Exemplos: «ele não me disse nada», «todos me viram», «já me vieram contar...»

Devemos ainda ter em consideração as construções estilísticas.
Análise dos casos apresentados

«Para os devidos efeitos se declara...» é uma forma estilística preferível porque se insere num texto formal.
«Para os devidos, declara-se...» é uma frase aceitável porque é compreensível.

«Posso-te telefonar...» é uma frase compreensível e aceitável na oralidade.
«Posso telefonar-te...» é uma frase preferível porque o pronome complemento está junto ao verbo principal. (sublinhado meu)

«Algumas vezes me deparo...» é uma frase de maior valor estilístico e, preferível, por exemplo, na poesia.
«Algumas vezes deparo-me...» é uma frase corrente na oralidade.

«Vou-me levantar...» – o pronome está junto ao verbo auxiliar, mas é uma forma corrente.
«Vou levantar-me...» – o pronome reflexo está junto ao verbo principal. É também uma forma corrente.
A. Tavares Louro :: 09/03/2007

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sobre o acordo ortográfico (Para reflectirmos)

(Chamo a vossa atenção para o facto de este texto estar redigido na variante do Português do Brasil)


Alexei Bueno é um jovem intelectual e curador na Academia Brasileira de Letras . Também é brizolista.Seu texto reflete as dificuldades do professor brasileiro com a famigerada reforma ortográfica . Alvaro Bastos(membro do diretório Nacional do PDT )






O PONTO INDEFENSÁVEL

Há, no recente acordo ortográfico, independentemente de tudo que nele se possa discutir, um ponto absolutamente indefensável, a retirada do acento agudo de pára, do verbo parar. Qualquer indivíduo letrado e com o mínimo de bom-senso já percebeu fartamente as dubiedades absurdas criadas por essa reforma equivocada. Para dar um exemplo simplíssimo, reproduzo uma manchete do jornal O Globo, que passou a usar a nova ortografia no dia seguinte à sua assinatura:

CRISE PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL

Nem Jesus Cristo seria capaz de ler em voz alta tal manchete sem antes ler o texto encabeçado por ela, pelo simples motivo que o para preposição e o pára verbo não têm um valor igual no ritmo da frase. No caso de pêlo e pelo, um substantivo e uma contração de preposição e artigo, isso não acontece, ambos têm o mesmo valor em frases como:

Ele foi pelo outro lado.

O cão perdeu o pelo.

As orações, como as palavras, têm partes tônicas e átonas. Comumente o verbo é a parte tônica. Pára, verbo, é muito mais forte que para preposição. Basta ler a manchete acima em seus dois sentidos possíveis, destacando seus pontos fortes, isso tudo para falar das coisas da maneira mais popularmente compreensível:



CRISE PÁRA A CONSTRUÇÃO CIVIL

CRISE PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL

Na primeira oração, a parte forte da frase é a sílaba tônica do verbo, na segunda é a sílaba tônica do primeiro substantivo. Pelo mesmo motivo o para preposição é comumente contraído em pra, e o verbo jamais. Qualquer um diz “Ele foi pra casa”, mas nunca ouviremos alguém dizer “Ela não pra de me telefonar”. O mesmo acontece com pôr verbo e por preposição, dos quais tiveram o bom senso de não unificar a ortografia, só aumentando de forma escandalosa a contradição do que fizeram com o pára. Vejamos duas frases:

VOU POR AQUI.

VOU PÔR O LIVRO NA MESA.

A diferença de força entre o por preposição e o pôr verbo é gritante. E o pior de tudo é que, já que o motivo ou pretexto do acordo ortográfico era a unificação – que não houve, apenas uma aproximação dela – da ortografia do português, a grafia dupla de pára e para era comum a todos os países! Mais um exemplo da falta de objetividade que nos infelicita há séculos. Trocando em miúdos, mexeu-se no que era igual para todos para criar dubiedades e piorar a leitura de todos. Não se trata de uma questão de costume, como acontece com quase todo o resto do acordo. Como já afirmei, nem Jesus Cristo saberia ler de primeira a manchete acima citada sem antes consultar o texto a que ela se refere. E se isso já se observa numa manchete de jornal, em prosa literária e poesia o desastre é completo, tenho colecionado exemplos lamentáveis em vasta quantidade. Enquanto os espanhóis - que, como os franceses, usam muito bem o seu trema – lançam mão até do ponto de interrogação e de exclamação invertidos no início da frase para evitar dubiedades na leitura, todas as orações em português que se iniciarem com um Pára imperativo obrigarão, de agora em diante, o leitor a começar a leitura com uma olhadela para a continuação da frase!

Sobre o trema, é bom lembrar que ele foi suprimido unilateralmente pelo governo fascista português em 1945. O problema da retirada do trema não está nas palavras óbvias, seqüestro, tranqüilo, cinqüenta, Anhangüera – aliás, o meu 12º avô -, pingüim, etc., mas nas de uso minoritário, fato que não me perece justificar, antes pelo contrário, tal supressão. Um único exemplo: aqüíparo. Quantos lusófonos, de todos os países, leriam tal palavra de maneira correta sem o trema? E isso para não citar o que de complicador tal supressão traz para os estrangeiros que buscam aprender português, nem a aberração de não se poder especificar o que se deseja em palavras de dupla pronúncia, como antigüidade e antiguidade, sanguíneo e sangüíneo, etc. Aliás, no novo Dicionário ortográfico, a correta ou dupla pronúncia de todas essas palavras é demonstrada de que maneira? Com o mesmíssimo trema - o expurgado trema – sobre o seu u entre parênteses! É a própria confissão gráfica da impotência. Fato mais grave, por ninguém lembrado, são os tupinismos – como o já mencionado Anhangüera, este de todos conhecido - e africanismos que não serão lidos de maneira exata por quase ninguém com a extinção do trema. É evidente que o governo salazarista, que extinguiu o trema, pouco estava interessado nos africanismos, e menos ainda nos tupinismos, mas daí nós, no Brasil, aderirmos a esse equívoco para seguir os portugueses, esta é outra questão. O autoritarismo do texto do decreto chega, nesse parágrafo do fim do trema, à seguinte enormidade, após declará-lo absolutamente revogado em português:

“Nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas vogais que normalmente formam ditongo: saudade, e não saüdade, ainda que tetrassílabo; saudar, e não saüdar, ainda que trissílabo; etc.”

Ora, em duas edições de textos de Camões que preparei e anotei há vários anos, sempre usei o trema, como inúmeros outros, para não transformar alguns dos mais belos versos da língua em versos frouxos. Não conheço maneira melhor de demonstrar a necessidade da se ler saüdade com quatro sílabas. Qual filólogo da borra vai me tirar tal direito? É o salazarismo em sua máxima expressão, ressuscitado no Brasil, onde um povo majoritariamente ignorante, servil e novidadeiro engole tal reforma instantaneamente, enquanto na Europa e em África nem um único acento e nem uma única consoante muda foram suprimidos por ninguém. Agora, a pergunta que não quer calar: se tal acordo não se efetivar em Portugal e África, o que acho mais do que provável, só nós assumiremos o ônus bilionário de tal inutilidade? Alguém faz idéia do patrimônio editorial destruído por nada, caso o acordo não se consolide? O problema, na verdade, não está num livro comum. Quantas pessoas têm idéia do que é uma reforma ortográfica para uma edição crítica, e o quanto custa de sangue, suor e lágrimas, caso seja séria, uma edição crítica?

Na verdade, nada muda no Brasil, apenas a ortografia e a Constituição, as duas coisas em que menos vale a pena mexer. No caso da ortografia, perece que nos aproximamos da 13ª em pouco mais de um século. Não há velho que escreva corretamente neste país, por motivos óbvios, com a exceção daqueles que precisam escrever nas normas vigentes por obrigação profissional.

Mas abdico de todas essas considerações apenas pelo que chamei de ponto indefensável no título deste artigo, a questão do pára e para. Não sei o nome do infeliz que propôs tal miséria, mas tenho suspeitas. Se não suprimirem rapidamente – antes de maior estrago, e só no caso do Brasil, onde tudo se engole – esse equívoco, aí é realmente necessário ler mais o saudoso Thoreau e partir para a ação direta.

Alexei Bueno

18-6-2009